quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

The Queer

Dedico esse texto a todos aqueles que não se sentem encaixados nos conservadores padrões exigidos pela nossa sociedade.


Quando eu era jovem eu não entendia muito bem o que era ser gay, sempre fui um menino muito no meu canto, nunca muito sociável, durante alguns anos na Escola Adventista, lugar onde aprendi a ler e a criar laços fora do meio familiar, fui coleguinha de todos na sala, destacava-me pela minha altura, porém, meus laços maiores sempre foram meninas, nunca tive muitos amigos homens, os pouco que tive eram em decorrência de maior convivência ou por pura conveniência por que sempre tive mais apego pelas minhas amigas mulheres.
O tempo foi passando, meu caráter aos poucos se moldava com aquilo que eu era e comecei a notar pequenas diferenças que me faziam sentir vergonha, como por exemplo brincar de boneca com uma das minhas amigas, brincávamos escondidos e guardávamos tudo quando alguém batia na porta, ora, eu era uma criança e sentia vergonha por gostar de algo que é considerado “coisa de menina”, nunca fui fã de futebol, nunca gostei de brincar de carrinho, trocava a bola por uma barbie e sentia vergonha por isso, os anos foram passando e fui notando que meus olhares não se voltavam às meninas, já tinha alguns amigos héteros, homens, e notava bem a diferença entre eu e eles, sempre tentando buscar uma máscara pra tapar a frustração que sentia ao notar que sim, eu era diferente, enquanto eles olhavam a bunda das meninas eu me deparava olhando para eles.
É claro que nada disso passou em branco na minha vida uma vez que sim eu sofri com o que hoje podemos chamar de “bullying”, eu era chamado de viadinho, bichinha, já jogaram uma garrafa de água de 2 litros encima de mim logo na entrada da escola e eu me mantinha quieto, meus conflitos aqui dentro ficavam cada vez maiores, a turbulência e o medo de auto-aceitação eram imensos, tornei-me um adolescente problemático, com crises existenciais imensas, que não gostava de pessoas, que não vivia a vida como qualquer outro adolescente comum faz, que ia a festas e mantinha-se, muitas vezes, sentado no canto por que simplesmente não se sentia encaixado naquele meio social.
Foram tempos horríveis, beirava o suicídio pois eu não conseguia aceitar oque eu era e não queria acreditar em nada do que eu estava vivendo, fiquei com mulheres e não sentia prazer algum nisso e isso me deixava cada vez mais revoltado, até que, um belo dia, sem conselhos, sem ninguém saber, resolvi me aceitar, quando me chamavam de viado, virava, mandava beijo, quando mexiam comigo eu aumentava o volume do meu MP3 no último, já não ligava mais... Não que tenha sido fácil mudar, não foi, foi uma decisão difícil mas sei que isso mudou tudo oque sou, o que vivo, o que transmito.
Pra eu chegar aqui, hoje, eu passei por coisas que um só texto não seria capaz de contar, nada é fácil, não é fácil quebrar padrões que nossos pais impõe desde que somos fetos, não é fácil encarar sociedade alguma e olha que eu moro em uma cidadezinha de sei lá, 60 mil habitantes, onde grande parte dos jovens ficou sabendo sobre mim e caíram com pedras e paus pra cima de mim sem dó nem piedade e eu baixei a cabeça? Não. Eu enfrentei. Não com violência, não com covardia, mas enfrentei com uma força que eu encontrei aqui dentro de mim, algo que nada nem ninguém é capaz de fazer com que você encontre, você simplesmente encontra.
Encarei grande parte dessas histórias calado, tinha vergonha de compartilhar com alguém, encarei tudo e me trancava no quarto e fazia dele o meu mundo por que era nele onde eu me sentia salvo desse mundo aqui fora, foi nele que eu encontrei por muitos anos o sossego e a paz que eu nunca encontrei aqui fora, nunca encontrei e provavelmente nunca encontrarei, mas, não é trancado no seu quarto que você conseguirá mudar a situação na qual você se encontra, não é forçando para que os padrões sejam quebrados que você conseguirá respeito, é em você, e somente em você que conseguirá encontrar a paz que precisa para encarar um xingamento com outros olhos, não é para aceitar, eu nunca aceitei ser xingado, eu só tapei meus ouvidos e deixei pra lá por que eu sei que a pessoa que diz aquilo simplesmente é vítima de uma sociedade que não sabe aceitar o que é diferente, que não sabe encarar que as pessoas tem gostos diferentes...
Vejo esses jovens de hoje cometendo suicídio e penso na minha história e nas diversas “oportunidades” que tive de cometê-lo e não o fiz por que algo aqui dentro não me deixava, por que eu encontrei em mim a paz que eu buscava no mundo, por que eu fui forte, por que eu lutei pra encarar o mundo e dar a cara a tapa e não foi com uma faca no meu pescoço nem nada disso que eu consegui encontrar o que eu buscava, foi abrindo a janela, destrancando a porta do quarto e vivendo que eu descobri que eu podia sim ser feliz mesmo que milhões de pessoas no mundo me odeiem pelo que eu sou, se eu pudesse chegar a esses adolescentes, diria-os exatamente oque disse nesse texto, força. Não é fácil, mas, você não precisa ter vergonha do que é, do que gosta, do que vive, do que faz. Seja a mudança que você quer ver no mundo, caso contrário, nada acontece.


Helton Hissao Noguti.

Nenhum comentário: