domingo, 2 de setembro de 2012

Pensamentos.



Eu já não tenho nem mais a liberdade de pensar sem que alguém me julgue antes mesmo de tentar me explicar, as pessoas tem o péssimo ato de não esperarem o término de uma reflexão para começarem a crítica, acredito que as pessoas deveriam se comportar igual a língua alemã, a qual obriga que seus ouvintes esperem o final das frases, por necessidade de compreensão, para que então possam abrir as bocas. sei lá! Não tem coisa pior no mundo do que ser mal interpretado, prefiro, portanto, ao formalizar uma reflexão, deixá-la o mais claro possível, acredito que quanto mais adulto se é, mais há a necessidade de se explicar como se estivesse conversando com uma criança, explicando nos mínimos detalhes, só que a criança, ouve, o adulto sempre tenta ser melhor que o outro, é a realidade da vida, queiram vocês ou não o mundo é uma eterna luta de egos e eu não estou nem um pouco afim de explicar o porquê, que se foda. Eu entendo o porquê disso e isso já me basta, por enquanto.


"Cada qual acredita que o que tem a dizer é muito mais importante do que qualquer coisa que o outro tenha a contribuir" -A.D. 


sábado, 1 de setembro de 2012

"São as nossas escolhas que revelam o que realmente somos, muito mais do que as nossas qualidades. " - Alvo Dumbledore

Às vezes me sinto tão fraco capaz de acreditar que coisa alguma dará certo, sou um ser humano comum, com defeitos, qualidades, que faz escolhas e paga pelas escolhas que faz, é como aquela velha máxima newtoniana, por assim dizer, "toda ação tem uma reação, igual ou contrária", é lógico que isso não é o mesmo que referir-se ao talião "olho por olho, dente por dente", seria ridículo pensar na lei de newton baseada pura e simplesmente no que chamamos de "pagar com a mesma moeda", como fala a própria lei, a reação pode ser igual, ou contrária.

Lançar uma palavra, por exemplo, nada fará com que ela retorne para a sua boca, uma vez dita, ou maldita, talvez somente outra palavra seja capaz de fazer com que ela se perca no inverno que nos deixa, dia após dia, ou não. Uma palavra é puro poder, capaz de construir e destruir impérios, criar e destruir confianças, medos, anseios, paixões. Reconheço o poder que a palavra tem, mas, como um human being, por mais que eu reconheça o poder que algo tem, sempre é capaz de errar ao utilizá-lo.

Sei lá! Talvez após 21 anos eu ainda não tenha aprendido o verdadeiro sentido do que chamamos de "felicidade", talvez ela exista quando souber utilizar essas palavras de modo a não cometer erros, deixando, assim, minha "humanidade" de lado, não no sentido pleno da palavra, mas no sentido de me elevar a um grau maior, tipo um Deus, sabe? Coisa que acredito que absolutamente ninguém tenha feito, o fato é que temos momentos felizes, não acredito que se possa viver a plena felicidade divina, aquela vivenciada pelos habitantes por trás das brumas, aquela que Morgana Le Fay obteve por algum tempo enquanto habitava Avalon, ou talvez nem ela, por sentir plena falta de seu irmãozinho, Arthur... Talvez nem ela!

A felicidade está dentro de nós, e mesmo estando, às vezes é difícil encontrá-la, talvez devemos afastar as brumas que temos dentro de nós mesmos para que cada qual encontre sua Avalon interior, o que é difícil e exige um certo grau de evolução, não que não possamos ser felizes nunca, claro que podemos ser felizes! Podemos viver grandes e edificantes momentos felizes, mas, infelizmente, não à todo momento, há sempre uma lágrima que traga as brumas de volta ao seu lugar, pelo menos até que finalmente encontremos um modo de afastá-las de vez.

Pergunto-me se isso demorará muito, não que ser humano seja algo doloroso, não é, é delicioso, acredito que a felicidade plena seria tão perturbante quanto a liberdade plena que o homem provavelmente teve somente em seu estado natural, como diria Rousseau, e após tanto tempo de "evolução" (?) seria perturbante retornar ao estado natural, ou até sentir a felicidade plena, acredito que meu corpo não aguentaria tamanha felicidade, desintegraria, como uma bomba atômica, como o nada, que existe e ao mesmo tempo não existe.

Ser feliz é encontrar-se dentro de si mesmo, árdua tarefa!

terça-feira, 28 de agosto de 2012

Nothing on but the radio

Às vezes me pego pensando no "nada", sim, no "nada". Nos dias de hoje a polarização da sociedade parece quase que um efeito instantâneo, se você não é uma coisa, é outra e vice versa, são raras as pessoas que conheço que são capazes de pensar no que eu posso chamar de "nada", "in the middle", sinto-me às vezes esquizofrênico em pensar que em tudo eu consiga achar pró e contras, acho que esse é um processo comum e que faz bem a todas as pessoas, afinal, refutar a própria ideia, torná-la o mais possível próxima do tipo ideal weberiano, não do modo ideal como pensamos de apropriado, belo, perfeito, ideal no sentido próprio mesmo, puro, ouro sem zinco, sabe?

Não sei, muitas vezes é essa a resposta que eu dou a muitas das situações, não por que de fato não saiba, mas por que é tão difícil tomar partido e ser a favor ou contra quando a discussão cabe a um campo muito maior do que uma pilha polarizada em positivo ou negativo, tento no máximo do meu ser pensar, pensar, discutir com quem sabe, por que tem gente que não consegue partir para a discussão sadia e solta os cavalos, por favor, desses eu quero distância. Estou em uma universidade, quero aproveitá-la ao máximo, não quero estar lá para ser a favor ou contra, somente, quero fazer ciência, quero pensar, quero fazer após muita discussão, muitas visões diferentes, não estou a fim de fechar os olhos e enxergar somente o meu lado, o seu lado me interessa, e muito, vamos ver onde chegamos, não há motivos para polarização instantânea quando o mundo precisa de discussão, precisa de conversa, precisa de pensamento, plano, ciência.

Por isso que ultimamente tenho me desligado de discussões polêmicas e ligado o rádio, pelo menos com ele eu consigo pensar, refletir, antes de tomar qualquer decisão, ou escrever qualquer texto, não que eu sozinho seja autossuficiente, não sou, mas prefiro tentar ser, o máximo possível, pensador sem a necessidade de me armar para a guerra, que é o que anda parecendo estar em uma sala de aula onde muitos parecem colocar a capa de gestor de políticas públicas e ainda estão em faze de aprendizado, eu estou aprendendo, e você?

Segure seus cavalos, ligue o rádio, pense, ouça, reflita, refute, o país tem muito a ganhar, não acha?


segunda-feira, 4 de junho de 2012

Profissional x Pessoal.

Difícil aquele que consegue separar trabalho e vida pessoal, acredito que a maioria das pessoas faça uma escolha, pois, neste exato momento, creio ser humanamente impossível manter uma boa vida profissional e uma boa vida pessoal, ao mesmo tempo.

Entrei para a Universidade de São Paulo, no ano passado, e desde então minha vida pessoal tem ficado em segundo plano à vida profissional, é claro que há suas exceções, meu namoro, por exemplo, tem ido de "vento em popa" e sido cada vez uma experiência melhor, a cada dia se renovando e transformando esses dias nas 24h cada vez mais felizes, sendo portanto, um alívio em meio a tanta turbulência que tem tornado esses dias mais difíceis, e não somente um alívio, como você (amor), sabe.
Detalhes à parte, escrevo este texto como um modo de desabafar tudo o que tem ocorrido comigo nesses últimos meses.

Como destaquei, logo no início do texto, acredito ser humanamente impossível criar uma sólida carreira profissional e ainda ter uma boa vida pessoal, rica de amigos, festas e coisas que tais. Principalmente quando você vive o exercício da sua "profissão", tá, eu ainda não exerço profissão nenhuma, estou me graduando, digo  vida profissional no sentido de construção da mesma, estou construindo a minha, eu vivo a minha vida acadêmica, posso ser criticado, após a publicação desse texto, por inúmeros amigos dizendo que é sim possível a separação entre as duas coisas e a plena harmonia, preconceitos a parte - posso estar sendo preconceituoso comigo mesmo neste texto, mas, whatever - digo referente a mim, que isso não está sendo possível. Uma coisa é você estudar algo dentro da sala de uma universidade, sair dela e deixar tudo lá e outra é você estudar, sair da sala e trazer aquilo aqui para fora e simplesmente não suportar discursos patéticos de pessoas que só conseguem enxergar o seu próprio umbigo, não que eu seja o dono da verdade, estou longe de sê-lo, mas muitas das coisas que eu tenho tentado fazer é lutar pela minha causa - que é a causa de muitos - e tentar fazer as pessoas enxergarem o macro, não o micro que as circunda, porém, sou tratado muitas vezes como esquizofrênico, autoritário... Não sou nada disso, posso ser considerado esquizofrênico no sentido de que difiro da sociedade que me circunda, difiro de pensamentos, ideias, assim como todos diferem uns dos outros e que meu discurso possa incomodar, ao invés de trazer algum insight sobre determinado assunto, e é essa a minha intenção, despertar o pensamento crítico naquele que não é capaz de enxergar o que está além das suas fronteiras de conforto, o grande problema é que nós vivemos em uma sociedade que tem preguiça de pensar e que entrega esse exercício de crítica a outras pessoas, as quais transmitem-nas informações que elas julgam ser importantes, dificultando assim, a interpretação de alguém que se cuida para que não tenha informações jogadas dentro da cabeça, sem qualquer filtro, e reproduzidas no cotidiano repletas de preconceito sobre coisas que elas nem sabem do que se tratam. Não que eu conheça tudo, saiba tudo, não. Ninguém sabe, ninguém conhece, mas, o exercício da crítica e da auto-lapidação, processo que eu chamo de eterno aprendizado, o "fazer ciência", no sentido de confrontar suas próprias ideias e tê-las cada vez mais lapidadas, ou seja, aprimoradas, torna-se essencial para que você consiga VIVER a cidadania.

Como viram, eu vivo aquilo que faço e não somente reproduzo, como a grande maioria das pessoas fazem, eu gosto de fazer o que faço e acho que isso irrita muito as pessoas de modo que eu sempre que posso, discordo das pessoas para fazê-las refletir mais sobre aquilo, não gosto quando as pessoas dizem que se calam quando não conhecem determinado assunto, eu não me calo, eu pergunto, aprendo, julgo, e ensino, pois, se não há ninguém para dizer que algo está errado, aquilo consolidar-se-á daquela maneira e acabará nos "achismos", o bombardeio de discordância, crítica e afins servem para o exercício da crítica, para a lapidação do conhecimento, caso contrário, tudo tenderá ao achismo e às certezas - ou incertezas - pré-conceituosas que esses achismos produzem - ou reproduzem. O que mais me irrita nas pessoas é o tamanho julgamento que elas fazem encima de mim por eu tomar essa atitude crítica e de desconstrução, julgando-me negativamente, ou de modo a me diminuir por eu tentar fazê-las refletir sobre algo que, sim, elas podem estar corretas, mas que há a necessidade da busca de uma sustentação maior daquilo que é pressuposto. 

Eu sou extremamente chato com aqueles que interferem na minha vida acadêmica, acredito que trabalhos em grupo sejam um dos fatores que me façam perder mais amigos, uma vez que eu odeio pessoas que me julgam sabendo que o que eu estou fazendo é para que elas reflitam sobre determinadas atitudes, sei lá, acho que eu acabei nascendo na sociedade errada, ou estou fazendo tudo errado, sabe-se lá o que é considerado certo ou errado nesse mundo onde vivemos, em um país onde Veja e Globo tem voz, alguém que luta pela eterna crítica está fadado a entrar realmente para a esquizofrenia, e lá vou eu para a exclusão social que essa minha postura traz, mas, nada disso significa que eu esteja fazendo a coisa errada, ou não.

Como disse, o aprendizado é eterno...

Helton Hissao Noguti.

quinta-feira, 31 de maio de 2012

O preconceito está na cabeça de quem vê?

Acredito que uma das piores experiências acadêmicas que tive até hoje foi ouvir que o preconceito está na cabeça de quem vê, quer dizer, racismo é crime, a Declaração Universal dos Direitos Humanos garante igual dignidade a todos, a Constituição reitera, movimentos sociais são calados por pré-conceitos e sua inserção no meio social se torna um tormento por essas pessoas que dizem que "preconceito está na cabeça de quem vê".
É muito mais fácil você se prender às suas convicções sem saber o que um gay, um negro, um índio ou sei lá o que passam diariamente. Uma visão preconceituosa de tamanha grosseria que torna esse país menos inclusivo. O preconceito não está esboçado somente em palavras ou em violência física, o preconceito está em olhares, risos, em uma sociedade que não inclui, em alguém que não quer enxergá-lo por que é mais fácil dizer que preconceito é questão de opinião. Ora essa, opinião? Digo que não é questão de opinião. 
É claro, sua carga valorativa influencia e MUITO nas suas ações, mas dizer que o preconceito é questão de opinião e que quanto mais se conhece do assunto mais "banalizada" a coisa fica chega a ser patético. 
Seria mais fácil então tratar tudo com achismos e deixar a norma, o conhecimento, de lado, afinal, a intenção de se conhecer sobre determinado assunto é tocar na ferida, coisa que muitos têm preguiça de fazer, o que de fato, não é meu caso.
Tratar dos assuntos partindo do seu conforto quando eles vão além dele é fácil, difícil é se inserir entre eles e sentir o que eles sentem.
Fico abismado com tamanha ignorância intelectual de algumas pessoas que tratam as coisas apenas com seu ponto de vista, sem buscarem na norma, sem partirem da ciência de desvinculação de padrões pré-estabelecidos e enxergar o que de fato ocorre e não o que é mascarado midiáticamente, quando não se conhece sobre o assunto, o legal é se calar, melhor o silêncio do que palavras que soam como tiros, literalmente tiros.
Consciência não se come, não se bebe, cria-se, aprende-se, VIVE-SE.

That's the way it is! :)

quarta-feira, 23 de maio de 2012

Direitos iguais, com os mesmos nomes - Helton Hissao Noguti.


Direitos iguais, com os mesmos nomes.
Helton Hissao Noguti.
Gestão de Políticas Públicas.
Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo.

As políticas de reconhecimento brasileiras estão longe do ideal, afinal, o reconhecimento dos grupos sociais como portadores de direitos específicos não é um exercício praticado diariamente, um exemplo de que essa disparidade ocorre mesmo sem que percebamos é simplificado no conceito apresentado por Arivaldo Santos de Souza, o racismo institucional.
O racismo institucional refere-se às políticas institucionais que, mesmo sem o suporte da teoria racista de intenção, produzem consequências desiguais para os membros das diferentes categorias raciais (Rex, 1987, p. 185). Para isso, há um sistema o qual é abastecido de certa forma por uma dada estrutura[1], sendo esse sistema e essa estrutura compostas por pessoas, indivíduos com cargas valorativas diferentes, tem-se a macro-noção de que as teias e cadeias de interdependência são compostas por grupos de interesses que dependem um dos outros, um partido social, uma ONG, um grupo social.

            A Constituição garante, logo em seu artigo 5º a igualdade entre todas as pessoas, mas a questão a ser resolvida é se o estabelecimento da igualdade como um direito garantido permite que as noções pré-adquiridas para a manutenção do status quo modifiquem-se no seu embrião para enfim garantir a igualdade descrita na Constituição Brasileira, uma vez que a carga valorativa muitas vezes entrega nas mãos de alguns cidadãos a decisão de grandes feitos, como o caso descrito no artigo de Santos de Souza:

“Imaginemos que a expulsão de uma comunidade quilombola de terras ocupadas, por hipótese, há mais de cem anos possa ser empreendida, conforme o ordenamento jurídico (sistema), por uma organização policial (estrutura). A polícia, que é composta por pessoas de várias origens étnico-raciais (a prática de racismo institucional independe de quem opera a estrutura), estaria restaurando a integridade do sistema. Embora a decisão judicial que nesse caso hipotético autorizou a retomada da propriedade por terceiros esteja em conformidade com os ditames do veículo do sistema (a estrutura legal), o resultado será racista, um caso de racismo institucional.”

            O juiz, tomador da decisão, cuja carga valorativa entra com máxima na mesma estabelece a expulsão da comunidade quilombola, e mesmo sem que haja intenção racial, acaba por ser uma decisão de cunho racista, levantando por fim a negação de igualdade entre os cidadãos. Isso tudo é legitimado dentro da própria estrutura que alimenta o sistema que por fim faz a manutenção do status quo excluindo os grupos minoritários – de direitos – da paridade participativa, para fins de não por em risco o mesmo.

            Tem-se a necessidade de pensar políticas públicas de paridade participativa com mais frequência, uma vez que as pessoas são diferentes e também diferem de cargas valorativas e se organizam em grupos os quais reivindicam muito e muito pouco lhes é garantido, há a necessidade da formação do gestor de políticas públicas engajado nas políticas culturais, grupos sociais, os quais são marginalizados e excluídos de uma sociedade de direitos que não lhes garantem viver a democracia como de fato ela é, sendo afastados por uma maioria que não quer garantia de direitos específicos pois de fato não é interesse do sistema mudar seu modo de agir, há a necessidade de modificar a estrutura, no seu âmago, para que então o sistema finalmente comece a reconhecer esses grupos como portadores de direitos iguais e com os mesmos nomes, como por exemplo, casamento civil entre homossexuais e não união homoafetiva, afinal, constitucionalmente somos todos iguais.

Bibliografia:

FRASER, N. Reconhecimento sem ética. Lua Nova, São Paulo, 70, p. 101-138.

SOUZA, A. Racismo Institucional: Para compreender o conceito. Revista da ABPN, v. 1, n. 3 – nov. 2010 – fev. 2011, p. 77-87.

ELIAS, N. Introdução à sociologia. Editora 70, 1999.


[1] Quando falamos em sistema, temos em mente todo o complexo americano de instituições básicas, valores, crenças etc. Já quando falamos em estruturas, queremos dizer instituições específicas (partidos políticos, grupos de interesse, burocracias) que existem para fazer que o sistema funcione. Obviamente, o primeiro é mais amplo do que o segundo. Nessa perspectiva, o segundo supõe a legitimidade do primeiro. Nossa visão é que, dada a ilegitimidade do sistema, nós não podemos conduzir transformações
no sistema sem alterar as estruturas existentes (Idem, ibidem, p. 41-42).

sábado, 21 de abril de 2012

A burocracia e os grupos sociais - Helton Hissao Noguti.


A burocracia e os grupos sociais.
Helton Hissao Noguti.
Gestão de Políticas Públicas
Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo.

   Max Weber e sua teoria da administração clássica baseavam-se na premissa de que toda organização que se pautava em regulamentos eram organizações formais. Portanto, burocráticas, estas, compostas por regras, as quais prezavam por formalidade[1], impessoalidade[2] e profissionalismo, todas buscando pelo equilíbrio de uma organização e a priori, manifestam-se mecanicistas, ao passo que o lado subjetivo ficava aquém do burocrático.
Tratando-se de grupos sociais, Weber não os considerava uma organização, separando-os em dois grandes grupos: os grupos sociais primários, que se diziam grupos informais (família, vizinhos e amigos), nos quais predominavam relações pessoais; e os secundários, que eram grupos formais, onde as relações eram regidas por regulamentos explícitos, como, por exemplo, o Estado. 
   Nos últimos anos, tem-se visto, com certa frequência, grupos sociais secundários lutarem por direitos, que lhes são negados pelo Estado, já que, este, simplesmente não reconhece esses grupos como uma organização de pessoas que buscam ter direitos de reconhecimento, com a finalidade de viver plena cidadania.
Posto que, a sociedade cresce com padrões pré-estabelecidos, os quais são impostos desde o momento da gestação, logo quando se descobre o sexo da criança, e sendo menino, já é imposto que vestirá azul, terá um carro com 18 anos e irá gostar de futebol. Por outro lado, quando é menina, vestirá rosa, dançará ballet e terá festa de debutante aos 15 anos.
Deve-se destacar que, o que esses pais, naquele momento de euforia, não compreendem é que esse menino, por vários fatores, pode decidir não gostar de futebol, querer dançar ballet, gostar de rosa, que essa menina, possa vir a ser uma jogadora de futebol, goste de azul e de se vestir, como os padrões classificam, “como um menino”. Diante disso, pergunta-se: Quais são as garantias de que essas crianças têm de que serão aceitos por quebrarem padrões sociais pré-estabelecidos pura e simplesmente por não serem assim?
   A Constituição Cidadã diz claramente em seu art 5º:

“Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade(...)”
Porém, para que se atinja essa igualdade, é necessário partir do pressuposto de que as pessoas são diferentes, e a burocracia se encaixa perfeitamente em reconhecer as desigualdades para que um dia se possa atingir a igualdade. Para explicar de que forma tal fenômeno ocorre, recorro à teoria de Nancy Fraser, baseada no Reconhecimento.
   A Teoria do Reconhecimento surgiu nos EUA no final da década de 1980, quando Marx estava em alta na Europa e Rawls na América do Norte. Sendo que, ambos convergiam na ideia de que igual redistribuição de bens poderia acabar com qualquer desigualdade social, visto que era considerado fator da desigualdade econômica. Enquanto que, outros teóricos encontravam a resposta no reconhecimento da dignidade humana, pois, não era possível atingir a igualdade caso as diferenças (em particular) fossem reconhecidas. Tal teoria ganhou notoriedade, o que ocasionou uma transição de redistribuição para reconhecimento.
Quando há a consciência de que a distribuição igualitária de bens materiais não será suficiente para acabar com as desigualdades sociais, sendo, portanto, necessário, aliá-lo ao reconhecimento da dignidade humana, a seguinte pergunta surge: Como atingir esse reconhecimento?
Nancy Fraser propõe a paridade participativa, que nada mais é do que igualdade de condições para que as pessoas possam, um dia, alcançar o mesmo patamar. Veja-se, por exemplo, as políticas afirmativas presentes na Constituição, considerada como a carta maior de um Estado. Ora, como já exposto, há a expressa disposição do artigo referente ao direito à igualdade. Logo, a paridade participativa é ferramenta que deve ser usada, inclusive pelos grupos sociais, para que eles tenham possibilidade de exercer direitos que lhes são negados.
E isso, pode ser feito com uma pergunta cuja resposta todos sabem, mas, a burocracia, que não reconhece os grupos sociais como organizações e preza pela impessoalidade, não consegue enxergar as necessidades que esses grupos sociais tem a fim de que possam ter voz e viver a plena cidadania, direito inerente à essas categorias.
Hoje, no Brasil, burocracia é sinônimo de dificuldade, de afirmação e constante mantenedora do status quo, fazendo com que as pessoas obedeçam o que está disposto, caso contrário não conseguirão objetivar seu direito. Como diz o próprio Max Weber:

“A dominação não está em quem manda, mas sim em quem obedece.”

Sendo os grupos sociais aqueles que se desvincularam daqueles padrões pré-estabelecidos e ergueram-se contra o status quo, para que lhes fosse garantida a paridade participativa, deve-se considerar que não são os culpados pela sua manutenção, e sim, vítimas, de uma “antipolítica” do reconhecimento, baseada no simples preconceito. Esta, quando manifestada chega a ser anticonstitucional, uma vez que liberdade de expressão não diz respeito à livre expressão do discurso do ódio.
À guisa de conclusão, tais grupos sociais devem ter seus direitos garantidos e devem ter paridade participativa, considerando que as teorias da administração evoluíram e passaram a enxergar as relações sociais como algo importante, tanto para o crescimento do sistema, como a fim de torna-las a favor de seu próprio status.



Referências Bibliográficas:

WEBER, Max. Teoria da Burocracia (1864-1920)
LOURO, Guacira Lopes.  Um corpo estranho:ensaios sobre sexualidade e a teoria Queer. Belo Horizonte: Autêntica, 2008.
FRASER, Nancy. Reconhecimento sem Ética. Theory, Culture & Society, v. 18, p. 21-42, 2001. Tradução de Ana Carolina Freitas Lima Ogando e Mariana Prandini Fraga
Assis.



[1] As burocracias são essencialmente sistemas de normas, a figura da autoridade é definida por lei, que tem por objetivo a racionalidade da decisão baseada em critérios impessoais.
[2] As relações entre as pessoas são governadas pelos cargos que elas ocupam